EU (2008)

Este espetáculo é uma continuidade e aprofundamento de LE MOI, LE CRISTAL ET L`EAU, obra de danca com mediacão tecnológica realizada durante a residencia artística no Centre Choregraphique National – Pavillon Noir, Franca, em 2007, premio recebido por Ivani Santana durante o Monaco Dance Forum 2006, no qual foi contemplada também com o Premio UNESCO para Promoção das Artes. Nesta nova ocorrência, agora intitulada “EU”, apresentará 4 subjetividades pertencentes ao mundo contemporaneo: o Nomade virtual; o Sujeito “Sem Rosto” transformado em dígitos; o Sujeito que “Perdeu a Cabeca” pelo estresse e pressão do cotidiano, um ser entre a sanidade e a loucura; e o Outro, aquele que não é o Eu e que nos dá um recorte desse mundo. Dramaturgias que convivem no mesmo espaço e ao mesmo tempo, enredando-se ou não pelo olhar do fruidor. Esse contexto da Cultura Digital refere-se ao mundo globalizado, conectado em rede, onde a vigília e a exposicão são extrapoladas e impostas. Trata-se de um sistema turbulento e vertiginoso, em que não há fronteiras, pois não existem mais territórios. Saímos do crivo geográfico para a especificidade do virtual. Por fim, ficam apenas as imagens dos diversos “EU”.

Este projeto foi criado pela articulação da dança com as novas mídias e propõe uma reflexão sobre nossos questionamentos sobre a subjetividade nestes dias da Cultura Digital. Trata-se de uma “ocorrência” de dança que propõe uma exploração espacial e imagética de imersão e interação em comunhão com o público. A emergência promovida por esse sistema, a auto-organização, é responsável pela poética criada com a obra em face do relacionamento de todos os elementos envolvidos. É neste exato local e nesse tempo específico que a obra ganha sua possibilidade de existencia e uma poética pode emergir.

O uso das novas tecnologias nesse espetáculo é pertinente pelo próprio tema abordado, assim como pela configuração que estabelece, propiciando um ambiente onde o público é participativo e as imagens são, na grande maioria, produzidas em tempo real.

Apresentação

O espetáculo EU é realizado por 3 dançarinos, 1 videasta, 1 músico e 1 designer de luz os quais possuem cada qual uma dramaturgia específica e, em cena, são responsáveis por toda a operacão da obra, ou seja, de todas as configurações do trabalho quanto a dança, ao cenário, iluminação e a mediação tecnológica estabelecida.

Ao adentrar o ambiente desta obra o público fica imerso em uma profusão de imagens colocando-o na condição de fruidor dessa instalação e não apenas de contemplador. Não há espaços definidos e distintos entre os indivíduos do público e os artistas dessa obra.

O espetáculo inicia com o desenvolvimento da dramaturgia dos 3 dançarinos e do videasta: 1) o “sujeito da hiper-mente”, o nomade virtual que não pára nunca; 2) o “sujeito sem rosto”: aquele tornado digitos, numeração de documento, login e senha; 3) o “sujeito sem cabeça”: a beira da loucura, o estresse tomado conta, um limiar entre a sanidade e a insanidade; 4) o “sujeito e seu olhar”:o mundo recortado em informação, em notícia, em imagem, um ponto de vista imposto por um específico olhar. O músico e o designer de luz, mostram suas dramaturgias durante o desenrrolar da obra. Estas subjetividades seguem em simultaneidade, no qual o público verá a relação desses “mundos” não como uma junção, mas como uma outra configuração que agora se organiza a partir da escolha particularizada de cada indivíduo desse sistema de sistemas.

Esta obra discute a questão da BUSCA do EU em plena crise do pertencimento como afirma o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. A busca pela permanência de uma subjetividade em seu processo transitório. A busca por traços identitários não descobertos, mas inventados, comercializados e consumidos. Trata da nossa eterna busca para descobrirmos quem somos, o que nos identifica e nos singulariza como persona, como cidadão, como pertencentes a uma sociedade ou uma nação. A preocupação e provocação não são com o resultado, mas é essa BUSCA que apresentamos no espetáculo de dança com mediação tecnológica. O “EU” do título poderia levar ao entendimento das singularidades e dos pertencimentos (sociais, religiosos, culturais, sexuais etc.), mas apostamos no aspecto irrevogável da alteridade e da transitoriedade. Como afirma Zygmunt Bauman somos seres fluídos de uma modernidade (contemporaneidade) líquida.

A poética da obra emerge dos acontecimentos em tempo real produzidos pelos dançarinos, pelas imagens geradas e manipuladas por computador e sensores acoplados aos seus corpos, pelo ambiente sonoro e pelo próprio público. A relação dança/novas mídias configura-se tanto pelo uso desses aparatos tecnológicos em cena como, principalmente, pela reflexão crítica sobre a implicação da sociedade e do indíviduo com a Cultura Digital. Desta forma, a utilização das novas mídias não ocorre como uma ferramenta facilitadora, mas como conteúdo imbricado com a própria concepção da obra.

Concepção e direção: Ivani Santana

Assistente de Direção: Verônica de Moraes

Dançarinos: Daniela Guimarães, Hugo Leonardo e Ivani Santana

Manipulação de Imagem em tempo real: Drica Rocha e Sol Gonzalez

Captura e Edição de Imagens: Gabriel Teixeira

Dançarinos convidados para o vídeo: André Carsant e Diane Portella

Fotografia: Claudia buonavitta

Ambiente e projeto tecnológico: Ivani Santana

MúSica: Edbrass E Nana Dias

Voz Em Off: Juraci do Amor Beef

Figurino: 220 Voltz

Desenho de Luz: Pedro Benevides

Coordenadora das discussões sobre Subjetividade: Anabel Guillen

Produção Artística: Cacilda Povoas 

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