Le Moi, Le Cristal et L’Eau (Aix-en-Provance, 2007)

Apanhou o envelope e com letra cuidadosa endereçou a si mesmo.

Fulano, rua tal, número tal e fechou-se.

Horas mais tarde a empregada colocou-o no correio.

Um dia sentiu-se na mala do carteiro.

Diante de uma casa, percebeu que o funcionário tinha parado, indeciso, consultara o envelope e prosseguira.

De volta ao departamento foi colocado numa prateleira.

Dias depois, de novo um carteiro procurou seu endereço.

Não achou.

Devia ter saído algo errado.

A carta voltou à prateleira, no meio de muitas outras, amarelas, empoeiradas.

Sentiu então, com terror, que a carta se extraviara. E nunca mais ele encontrou a si mesmo.

Ignácio de Loyola Brandão (Cadeiras Proibidas, 1976)

Catálogo Pavillon Noir

Programa do espetáculo no Centre Choregraphique National – Aix-en-Provance, França.

Concepção da obra:

Não sei sambar, não sou religiosa, nunca fui ao terreiro, não entendo de futebol, não gosto de carnaval, mas sei que sou brasileira.”

Bem poderia ser essa frase o nome do espetáculo se tão grande não fosse. Uma obra que discute a questão da BUSCA do EU em plena crise do pertencimento como afirma o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. A busca pela permanência de uma subjetividade em seu processo transitório. A busca por traços identitários não descobertos, mas inventados, comercializados e consumidos.

O EU, O CRISTAL E A ÁGUA trata da nossa eterna busca para descobrirmos quem somos, o que nos identifica e nos singulariza como persona, como cidadão, como pertencentes a uma sociedade ou uma nação. A obra não pretende discutir “a” identidade brasileira, ao contrário, questiona até que ponto somos nós os definidores dessa identidade, ou são os outros. A preocupação e provocação não é com o resultado, mas com a BUSCA.

Não sei sambar, não sou religiosa, nunca fui ao terreiro, não entendo de futebol, não gosto de carnaval, mas sei que sou brasileira. Assim é como me sinto, mas como metáfora poderia servir a muitos outros não identificados com o Brasil “exotique”. O projeto utópico do novo édem – o Novo Mundo – criado um dia pelos nossos colonizadores (?) trouxe, inexoravelemente, a subjetividade da diferença = o que nos difere dos outros (estrangeiros) é a própria diferença encarnada como nação, agora não mais definida como una, mas compreendida como multipla.

O EU” do título poderia levar ao entendimento das singularidades e dos pertencimentos (sociais, religiosos, culturais, sexuais, etc.), mas apostamos na idéia (da busca) de identidade pela seu aspecto irrevogável da alteridade e da transitoriedade. Por isso na sequência: “A ÁGUA”. Somos ciente das nossas idiossincrasias que só fazem sentido por justamente não pertencerem a outro, por serem diferentes daquelas que o “vizinho” possui. Mas tais características sabemos que não podem ser fixadas como “O CRISTAL”. Como afirma Zygmunt Bauman somos seres fluídos de uma modernidade (contemporaneidade) líquida. Somos seres culturais e, portanto, processuais, pois ambos – ser humano (brasileiro) e cultura (Brasil) – são indissociáveis e estão em constante transformações.

O EU, O CRISTAL E A ÁGUA faz uma reflexão e provoca questionamentos sobre esses corpos bio-fisio-sócio-econômico-cultural, em sua busca pelo pertencimento na existência transitória tão acirrada nestes dias da Cultura Digital. Contexto este pertencente ao mundo globalizado, as metrópoles sempre em vigília, à um sistema turbulento e vertiginoso, onde as fronteiras foram apagadas, modificando do crivo geográfico para a especificidade do virtual.

Colocamos em foco a busca desmesurada ao pertencimento de um “EU” contextualizado (brasileiro?) construído entre a permanência – a parcela “CRISTAL” – e a transformação – sua condição de “ÁGUA”. Neste processo, percebemos o tempo como o trilho onde a vida segue seu rumo. E como todo trilho é transitável no ir e no vir.

Em O EU, O CRISTAL E A ÁGUA embrenha-se outro projeto que o complementa com imagens criadas por internautas do ciberespaço. “Só o seu vizinho é estrangeiro” é um projeto que propõe a participação dos usuários da rede para enviarem uma imagem (foto ou clip de vídeo de 30 segundos) do que consideram pertencer a definição de brasileiro e que serão postadas no blog do projeto. Essas imagens serão utilizadas no espetáculo e ficarão disponibilizadas no site do Grupo de Pesquisa Poética Tecnológica na Dança (www.poeticatecnologica.ufba.br).

O EU, O CRISTAL E A ÁGUA é um espetáculo criado pela articulação da dança com as novas mídias. A poética da obra emerge dos acontecimentos em tempo real produzidos pelos dançarinos, pelas imagens geradas por sensores acoplados aos seus corpos e pela sensibilidade do sistema ao meio, pela ação inteligente dos dispositivos autômatos (robôs) e pelo próprio público. A relação dança /novas mídias configura-se tanto pelo uso desses aparatos tecnológicos em cena como, e principalmente, pela reflexão crítica sobre a implicação da sociedade (neste caso a brasileira) com a Cultura Digital. Desta forma, a utilização das novas mídias não ocorrem como uma ferramenta facilitadora, mas como conteúdo imbricado com a própria concepção da obra. 

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