Sussurros. Uma Paisagem Sonora performativa para a Dança

RESUMO do Projeto

Por um momento, tente lembrar de quando caminhava na calada da noite e o som da sua respiração ofegante e de seus passos apressados tilintavam seus ouvidos e seus pensamentos como uma toada…. lembre-se de quando escutou o bater do coração do companheiro, … ou lembre de uma dança silenciosa que tenha visto, na qual cada movimento fornecia um ritmo, uma cadência, um pequeno ruído de articulação, … e trazia para sua memória lembranças vívidas e repletas de som. Essa proposição de dança articula o corpo e sua própria sonoridade, buscando descobertas para além da tradicional relação movimento-música. Esse é o intuito desse trabalho, utilizar nossas próprias sonoridades como motivo estético para a criação e para sua própria “trilha sonora”. Trata-se de uma investigação do corpo e suas sonoridades, sejam elas orgânicas, acústicas ou simbólicas, em como a criamos, como nos relacionamos com elas e como são entendidas pelos outros. O público será colocado em duas condições: a) assistindo e participando do trabalho a partir de uma soundscape specífica utilizando fones de ouvido; e b) assistindo a evolução do espetáculo no silêncio ou com os poucos ruídos que são gerados pelo próprio corpo e pelo espaço no instante do acontecimento. Os dois pontos de vista e de escuta são interessantes. Essa é uma poética entre a cinestesia da bailarina, a escuta de paisagens sonoras construídas com o próprio corpo dançante, a dramturgia criada com o contexto e as imagens mentais (de um corpo-mente) formuladas pelo público. Um estímulo à imaginação a partir do corpo de quem produz a dança e daqueles que a fruem.

A concepção:

Buscando criar outros universos poéticos através da mediação tecnológica para além do uso abusivo e desgastado da imagem na contemporaneidade, criamos uma proposição estética através da relação de um corpo que dança e o universo inebriante da sonoridade, o som que nos leva a divagar e liberar nossa imaginação. Por analogia, podemos dizer que se assemelha aos momentos em que estamos olhando através da janela enquanto escutamos uma música, e aqueles corpos, objetos, paisagens que passam por nós, acabam por transportar-nos para um mundo de imaginação, de lembrança e de memória. A relação do público com a obra pode assemelhar-se a essa situação do olhar através da janela. O uso dos fones de ouvido cria uma intimidade individualizada entre a pessoa do público e a bailarina. O público é içado da realidade através do contato com o corpo da bailarina e a sonoridade (silenciosa, ruidosa, melódica, detalhada…) da paisagem sonora. Aquele que assiste sem os fones de ouvido e contempla a relação íntima e ação compartilhada entre indivíduos do público e a bailarina, permanecem na magia e na curiosidade de quem olha pelo lado de fora de uma sala de vidro, onde pessoas interagem , conversam, discutem e várias ações que podem ser compreendidas mas não escutadas, deixando espaços abertos para imaginar o que exatamente ocorre por ali. Um anonimato silencioso que permite vivenciar um filme mudo como se estivesse dentro dele. Esse é o universo poético que concebemos para desenvolver “Sussurros”, um acontecimento construído pelo sonoridade, pela realidade concreta de um corpo e pela imaginação de cada um naquele contexto.

SUSSURROS

Paisagem Sonora para Dança

Concepção

Ivani Santana

Stephan Jürgens: Assistência estratégias de improvisação

Sempre achei. Sempre achei que quando envelhecesse ia desenvolver uma noção de História. O que não é o mesmo que a memória, obviamente. A minha memória está óptima. A minha memória até está se calhar um bocadinho boa de mais. Se eu não tivesse a certeza de me lembrar das coisas – se não soubesse que ainda estou na posse das minhas faculdades ao ponto de me lembrar da maior parte da minha vida, mas tenho a certeza de que me lembro da maior parte da minha vida, era outra coisa. Nesse caso, partiria do princípio de que, sabendo que há espaços em branco – períodos de que não me lembro – a minha falta de uma noção de História, de progressão, se ficaria a dever ao facto de que alguns dos pontos que eu tinha de unir se tinham perdido para sempre num cérebro em degenerescência. A pergunta que se impõe, no entanto, é óbvia. A pergunta é: mas se houvesse espaços em branco na tua memória não poderia dar-se o caso de não estares consciente deles? Talvez, sugere a pergunta, haja coisas que eu não só esqueci como me esqueci de que as esqueci. E se isso for verdade, qualquer asserção da minha parte quanto a ter boa memória mas nenhuma noção de História se torna imediatamente suspeita porque eu só posso achar que tenho boa memória. Tornei-me cega aos espaços em branco. Mas não há espaços em branco. A não ser que o meu subconsciente os preencha, claro. A não ser que eu crie de forma espontânea ficções que são tão convincentes que tornam invisíveis os espaços em branco. Podia estar a fazer isso. Mas duvido que esteja. E satisfaz-me alimentar esta dúvida. Ao invés de pensar que tenho uma mente que está simultaneamente a perder memórias e é capaz de criar mentiras absolutamente convincentes para esconder a perda de si própria. Por isso escolho lembrar-me que me lembro de tudo. E continuo sem uma noção de História. Lembro-me de tudo e não aprendi nada com isso. Ou aprendi bastante. Mas nada que tenha gerado uma sensação de familiaridade ou segurança. Nada que me permita imaginar que sei o que está ao virar da esquina. E estou satisfeita com isso. Acho. Ou pelo menos estou reconciliada com esse facto.

Written by

No Comments Yet.

Leave a reply