Apresentação

Vídeo-Dança de Produção Portuguesa é o projeto que visa reunir obras contemporâneas do género criadas nos últimos 10 anos por artistas portugueses, tendo dois propósitos: compor os Eixos Curatoriais da plataforma Mapa D2 e tornar-se o foco de estudo para o desenvolvimento da tese de mestrado da própria pesquisadora, aluna do curso Performance Artística – Dança da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa. A partir destes dois objetivos, o projeto adquiriu, por um lado, um contexto de aplicação prática e, por outro, uma vertente teórico-académica, que foi orientada e proposta à pesquisadora pelo Prof. Doutor Daniel Tércio, parceiro do Mapa D2 em Portugal.

Objetivos

Investigar a produção portuguesa de vídeo-dança, gerando uma reflexão sobre o seu conteúdo, colocando as obras em evidência e dando-lhes a visibilidade necessária para:

a) informar os artistas da área sobre o conteúdo contemporâneo produzido em Portugal;
b)  disponibilizar esse conteúdo para futuros estudos académicos;
c)  permitir ao público em geral um acesso fácil e organizado a essas obras.

 

Seleção e Critérios

Para localizar as obras de vídeo-danças produzidas nos últimos 10 anos, investigámos sobretudo as programações dos festivais nacionais dedicados ao género. Entre os principais estão: Inshadow – Festival Internacional de Vídeo, Performance e Tecnologias; FRAME Research – Performance e Novas Tecnologias; e a Quinzena de Dança de Almada, cuja programação inclui um espaço dedicado à exibição destas obras. Para reunir o maior número possível de vídeos para este projeto, foram paralelamente entrevistados os organizadores dos festivais acima citados, assim como coreógrafos, bailarinos e realizadores, que, por sua vez, indicaram outras obras.

Uma vez na posse de uma considerável quantidade de vídeo-danças e tendo como objetivo mostrar uma visão real e transparente do panorama da produção portuguesa, definimos que ao selecioná-las deveríamos abster-nos de emitir qualquer juízo de valor, sem discriminação ou favorecimento com base na vertente profissional e/ou artística da obra. Houve também um especial cuidado para evitar que obras de outros géneros, que não o de vídeo-dança, entrassem equivocadamente para o inventário. Considerando estes princípios, os dois critérios escolhidos para a seleção das obras foram: a) o criador devia reconhecer a sua obra como pertencendo ao género vídeo-dança; b) a obra teria de ter sido difundida através de eventos ou plataformas reconhecidamente dedicadas a esse fim.

O primeiro critério leva em consideração a opinião do artista, permitindo assim compreender como os criadores portugueses pensam e concebem vídeo-dança. O segundo parâmetro tem em conta o meio normalmente utilizado em Portugal para a divulgação deste género de obras. Uma vez que festivais e plataformas da área aplicam processos de seleção através de curadorias, considera-se que, se a obra conseguiu passar pelo crivo de especialistas, está apta para representar o género, no que diz respeito a este estudo.

Após a aplicação dos respetivos procedimentos acima citados finalizámos a seleção, com um total de 39 obras devidamente autorizadas e aptas para entrarem para o estudo.

Critérios de organização

Do visionamento das obras foram observados três aspetos, que tratam sobre os processos técnicos pelo qual uma obra passa quando é produzida e que têm relação com o modo como o aspeto da dança é representado em vídeo-dança. Além da possibilidade de vermos um corpo que dança, o que seria mais habitual e esperado, há outras formas de revelar este conceito, designadamente através de uma câmara em movimento ou de uma coreografia fruto de um trabalho de edição. As diferentes dimensões coreográficas da relação entre a dança e o vídeo, como descritas por Caldas (2012, p. 251), são “a do corpo filmado, da câmara que filma, da edição que compõe”.

Baseando-nos nestas três dominâncias, intitulámos cada processo da seguinte forma:

a)  Filmando a Coreografia;
b)  Coreografando a Filmagem;
c)  Coreografando a Edição.

Descrição dos Processos

a) Filmando a Coreografia: refere-se a obras em que foi utilizada, sobretudo, uma forma de filmar mais estática, através de planos fixos. Nestas, as tomadas são feitas na maior parte do tempo com a câmara pousada sobre o tripé e opta-se por executar ângulos e enquadramentos em que ela exerce um papel de observadora perante o objeto filmado. A câmara, “… is the eye through which the viewer sees.” (McPherson, 2006, p. 24). Nestas obras, o movimento provém principalmente do objeto filmado, uma vez que a atenção está na imagem captada. Há uma maior relevância do “que está sendo filmado” do que de “como está sendo filmado”. Um exemplo do tipo de efeito que esta abordagem cria é que “Com a câmara parada e o bailarino em movimento, dependendo do tamanho do plano, podemos ter a ilusão de que ele se move mais velozmente (em caso de plano apertado). Já com a câmara e o bailarino parados, o tempo parece prolongar-se” (Barata, 2013, p. 70). Dependendo do resultado que o criador quiser obter com a sua obra, poderá usar este processo para acentuar diferentes impressões.

b) Coreografando a Filmagem: ao contrário da primeira, aqui a câmara adquire um papel ativo durante a filmagem. Este procedimento refere-se às obras em que, como McPherson (2006, p. 34) explica, a câmara “acompanha”, movimentando-se pelo espaço. Exemplificando, “A ‘dança’ da câmara (movimento) é sempre jogada em relação com a dos bailarinos. Pode-se fazer em complementaridade com os movimentos destes ou, pelo contrário, em total contraste” (Barata, 2013, p. 70). A câmara ora é segurada nas mãos, colocada em trilhos ou sobre uma grua para se deslocar. É também utilizado o movimento proveniente da câmara, mesmo quando esta está sobre um tripé, podendo girar, fazer planos panorâmicos de um lado para outro ou utilizar zoom para afastar e aproximar. É importante destacar que praticamente todas as obras de vídeo-danças utilizam alguma das técnicas de filmagem aqui mencionadas, mas são poucas as que o fazem de forma constante.

c) Coreografando a Edição: refere-se a obras que passaram por um processo artístico relevante durante a fase de pós produção. As imagens captadas podem ser estruturadas de uma forma diferente da ordem em que foram filmadas, e/ou inclusivamente alteradas por completo. Neste tipo de obras é comum, como Pearlman (2012, p. 229) descreve, o responsável pela montagem usar “fragmentos de movimentos e transformá-los em frases”, criando portanto a coreografia na edição. Segundo McPherson (2006, p. 174), é através da justaposição de cenas e sons que a obra adquire o seu impacto emocional. A importância de um momento ou movimento pode ser explorada, retardando o tempo, esticando ou repetindo uma cena através da edição. Neste tipo de obras, é comum vermos manipulação da velocidade, efeitos de imagem e sobreposição de planos. Uma das técnicas bastante utilizadas pelos artistas portugueses é o dispositivo de reverse speed, que, como Barata (2013, p. 70) descreve, “provoca uma distorção da ação física”. O caráter experimentalista está substancialmente presente, bem como uma grande influência de vídeo-arte.

 

Organização das Obras

A partir dos três processos escolhidos (Filmando a Coreografia, Coreografando a Filmagem e Coreografando a Edição) desenvolvemos um método de organização para as obras. O método leva em consideração a influência que cada uma destas dominância exercem sobre cada vídeo-dança. Para tal, foi criada uma fórmula com uma medida estável, definida pelo valor 15 para quantificar cada vídeo-dança, em que a soma do valor atribuído a cada processo deve dar, obrigatoriamente, este valor. Para aplicarmos este método foi criado um gráfico com três extremidades, desenhando um triângulo, em que cada um dos cantos é representa por um dos processos. Quando é atribuída uma percentagem a cada processo, a fórmula, através de um vector, posiciona a obra num determinado lugar dentro do gráfico. Gerando aproximações entre os estilos que mais representa a obra e afastando-se daqueles processos que são menos evidentes nela.

É importante esclarecer que, havendo subjetividade na apreciação, o gráfico deve ser considerado como uma proposta baseada na opinião de um observador e não como um conteúdo definitivo ou absoluto, uma vez que o mesmo método, se aplicado por outro indivíduo, poderá eventualmente levar a resultados distintos.

A seguir apresentamos as 39 obras, ordenadas por ordem alfabética. Do lado direito do nome de cada obra encontra-se a proporção que foi atribuída para cada processo, lembrando que a soma deve dar o total de 15. E para uma melhor apreciação do gráfico, na coluna da esquerda pode ser visto um número com o qual pode ser identificada a coordenada de cada obra dentro do triângulo.

 

Clique sobre o nome de cada obra para ver o vídeo e respectiva descrição:

 

Opressão | Libertação (2012)P48 (2011)

Respiro (2012)Skin (2007)Tao (2010)

Referência no gráfico Nome da Obra Filmando a Coreografia Coreografando a Filmagem Coreografando a Edição
1 ACSC1 (2011) 10 1 4
2 A Dimensão Oculta de Renata Polónia (2012) 10 2 3
3 Amenta (2012) 13 1 1
4 Animalz (2005) 2 6 7
5 A Praça (2011) 5 5 5
6 CORpo (2007) 11 1 3
7 Corpo sem Órgãos  (2012) 13 1 1
8 EHora (2005) 3 2 10
9 Existência Abstrata e Obediência (2011) 2 1 12
10 Exótica (2009) 11 2 2
11 Floema (2008) 9 3 3
12 Hannah (2009) 2 8 5
13 Hope (2010) 2 1 12
14 ID (2008) 3 3 9
15 IIB (2007) 9 1 5
16 I’m not a hooker I’m a dancer (2011) 2 3 10
17 Mazezan (2012) 10 3 2
18 Mergulho (2009) 3 1 11
19 Mountain Mouth (2013) 12 1 2
20 Nº 2743 (2011) 6 1 8
21 O Guardador de Rebanhos (2012) 5 6 4
22 Ophélia. Acto I (2009) 4 2 9
23 7 5 3
24 Outside (2007) 10 3 2
25 Partes (2008) 11 2 2
26 Procissão K (2008) 7 5 3
27 Próteses para feridas emocionais (2009) 2 2 11
28 Pura & Simplesmente (2012) 11 2 2
29 P48 (2011) 11 2 2
30 Respiro 5 8 2
31 Skin (2007) 1 1 13
32 Tao (2010) 5 1 9
33 Tênue (2009) 2 11 2
34 Try Till Die  (2011) 3 2 11
35 Tzero (2011) 4 1 10
36 Untraceables Patterns (2011) 8 4 3
37 Untitled (2012) 12 2 1
38 Viagens da Dança na Floresta da Teoria (2003) 11 2 2
39 Whisper (2013) 2 4 9

 

large_triangle

 

 

O gráfico identifica quais os processos que são mais utilizados pelos artistas. E como se pode observar, há uma maior aglomeração de obras nos estilos Filmando a Coreografia e Coreografando a Edição, mostrando serem estas as opções mais utilizadas pelos criadores de vídeo-dança em Portugal.

Quando uma obra se encontra próxima de um dos cantos do triângulo, significa que tem mais acentuado aquele processo. Quando a obra se encontra mais centralizada, a sua tendência é ter os três processos trabalhados de uma forma mais homogénea. Já quando uma obra reside numa das laterais, apenas entre dois pontos, o processo oposto não foi utilizado tanto quanto os outros dois.

 

PRINCIPAIS AUTORES

ANA RENATA POLÓNIA        ANA SANCHEZ        ANTÓNIO CABRITA       BÁRBARA HORA       BRUNO CANAS       CARLOS PORFÍRIO       CATARINA BARATA       CATARINA MIRANDA       CLÁUDIA BATALHÃO       DÁRIO PACHECO       FELIPE MARTINS       ISABEL BARROS       JOÃO LUZ       JOÃO PAULO SANTOS       JOSÉ GONÇALVES       LUÍS MARRAFA       NÉ BARROS       NELSON DE CASTRO       NUNO NEVES       PAULA VARANDA       PEDRO SENA NUNES       RAFAELA SALVADOR       RENATA FERRAZ       SÃO CASTRO       SÉRGIO CRUZ       SOFIA AFONSO       VALDJIU

 

Bibliografia

Barata, C. (2013). “In the midst of confusion”: da dança em cinema e da adaptação de dança para o ecrã – processos de criação intermediais. (Tese de mestrado). Lisboa: Instituto Politécnico de Lisboa. Escola Superior de Teatro e cinema.

Caldas, P. (2012). Poética do movimento: interfaces. Dança em foco – Ensaios contemporâneos de videodança. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora e Consultoria Ltda.

McPherson, K. (2006). Making Video Dance A step-by-step guide to creating dance for the screen. EUA e Canadá: Routledge.

Pearlman, K. (2012). A edição como coreografia. Dança em foco – Ensaios contemporâneos de videodança. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora e Consultoria Ltda.

 

Créditos

MAPA E PROGRAMA DE ARTES EM DANÇA (E PERFORMANCE) DIGITAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
GRUPO DE PESQUISA POÉTICAS TECNOLÓGICAS: CORPOAUDIOVISUAL

Direção
Profa. Dra. Ivani Santana
Coordenação
Jacson do Espírito Santo
Responsáveis pela Curadoria
Investigação e produção: Laura Ferro
Coordenação e orientação: Daniel Tércio

Produção
Grupo de Pesquisa Poéticas Tecnológicas: GP Poética
www.poeticatecnologica.ufba.br

Apoio
RedeClara
www.redclara.net
Acervo Mariposa
www.acervomariposa.com.br

Auxílio à Pesquisa
Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB)
www.fapesb.ba.gov.br

Título do Eixo Curatorial: Vídeo-Dança de Produção Portuguesa

Currículo Resumido

Laura Ferro: Coreógrafa e diretora artística. Fundou, em 2003, a Companhia Swásthya de Artes Cénicas, em Curitiba, estreando o seu primeiro espetáculo em 2004, no teatro Elis Regina – Anhembi, em São Paulo. Criou e apresentou espetáculos em diversas cidades do Brasil e no estrangeiro. Em 2008, inaugurou um novo pólo de ensaios na cidade de São Paulo. O seu trabalho artístico consistiu sobretudo na pesquisa de movimentos provenientes das filosofias orientais, revelando o Yôga como principal técnica para a construção coreográfica. Em 2010, na sequência de um convite da DeROSE Culture e da Ordem do Mérito das Índias Orientais, funda em Portugal a AdiMove Company, que fez a sua estreia no Rivoli Teatro Municipal, em 2011. Nos últimos 15 anos, ministrou cursos e consultorias de coreografias em diferentes instituições, em seis Estados do Brasil e na Europa, nomeadamente em Paris, Barcelona, Roma, Lisboa e Porto. Atualmente, trabalha na produção e criação de obras artísticas para o setor comercial e em projetos independentes. Paralelamente, é aluna do curso de Mestrado Performance Artística – Dança, da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa.

Daniel Tércio: Estudou Filosofia (UL), Artes Plásticas (ESBAL) e História da Arte (UNL). Foi bolseiro do serviço de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian, durante o biénio 1994/95. Em 1997 concluiu o Doutoramento em Motricidade Humana-Dança na Faculdade de Motricidade Humana. Na sequência da pesquisa então realizada, publicou a obra Dança e Azulejaria no Teatro do Mundo. Para além de numerosos artigos publicados em Portugal e no estrangeiro, é autor de obras de ficção e tem participado em projetos performativos e de formação artística, numa perspectiva transdisciplinar. Atualmente, é Professor Associado na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa. É membro da direção do Instituto de Etnomusicologia – centro de estudos em música e dança, coordenando uma linha de estudos sobre etnocoreologia e estudos culturais em dança. Desde 2004 colabora regularmente com a imprensa escrita, sobretudo como crítico de dança.